Grupo de Capoeira Angola celebra 35 anos na Maré
- 26 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de ago. de 2025
Texto por Christóvão Carvalho, publicado originalmente no Jornal O Cidadão em 22/07
Entrevistas: Ana Cristina da Silva e Christóvão Carvalho
Entre os dias 18 e 20 de julho, o Grupo de Capoeira Angola Ypiranga de Pastinha celebrou 35 anos de atuação com oficinas e rodas abertas na Portelinha, no Morro do Timbau. Fundado e conduzido pelo Mestre Manoel, o grupo construiu uma trajetória marcada pela educação, resistência e valorização da cultura afro-brasileira dentro da favela. Todo o evento aconteceu no Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha.
Espaço de cultura no Timbau.

O Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha está situado na Rua Capitão Carlos, número 26, na favela da Portelinha, no Morro do Timbau. O local é a antiga fábrica de cimento Quartzolit, e hoje é moradia de diversas famílias. Além da capoeira, aulas de música e de jiu-jitsu são outros projetos locais disponíveis a todos. Para um contexto maior, conheça a Portelinha através da matéria que a equipe do Jornal produziu.
Chegando de Duque de Caxias, antes de consolidar o espaço na Portelinha, o Mestre Emanoel Lopes Lima (63) iniciou suas atividades com crianças da Maré na Rua Guilherme Maxwell, com vínculo ao CEASM. Posteriormente, ele criou seu próprio projeto e foi convidado a ocupar um espaço no prédio atual.

Pedagogia aplicada à Capoeira Angola
Mestre Manoel é conhecido pela sua metodologia pedagógica de ensino, com proposta de arte-educação voltada à consciência crítica, identidade afro-brasileira e valorização da cultura popular. Durante as aulas, jovens periféricos são encorajados a superar as barreiras da desigualdade social, do preconceito e da violência.
A Capoeira Angola é a forma mais ancestral da capoeira, nascida nos guetos e comunidades negras como forma de resistência ao sistema opressor. Com movimentos mais lentos, próximos ao chão e guiados pela musicalidade, ela carrega não só uma prática corporal, mas uma filosofia de vida. Como destaca Mestre Manoel, a prática transmite uma história apagada dos livros, mas viva nos corpos e nas rodas: “É formar, não o lutador de capoeira, mas o cidadão com a consciência crítica, política. Ainda mais dentro da comunidade”.

Ancestralidade, cultura e apoio periférico
O Centro de Cultura Popular é simples, mas cheio de história. Nas paredes, fotos antigas, instrumentos e faixas mostram o caminho percorrido por dezenas de alunos e alunas que passaram por ali. Fitas de VHS, fotos reveladas e pastas com documentos contam a história de 35 anos de existência que, segundo Mestre Manoel, formou mais de 400 alunos. Alunos esses que vieram de diferentes partes da Maré, de outros bairros e até de outras cidades.
Sendo um exemplo, Sarah Diniz (30), conhecida na capoeira como Saracura, é aluna do Mestre há 2 anos, e reside nas adjacências da favela. Ela explica que o interesse em fazer parte do projeto vai além do aprendizado ao movimento. “Eu me conectei muito com a sabedoria ancestral que o Mestre firmou aqui neste espaço, todo o conhecimento, o reconhecimento e, também, a questão das minhas raízes, por ser nascida numa região tão próxima, então acabou fazendo muito sentido, além do trabalho direcionado para as crianças, que a educação da base dentro da comunidade é a base da transformação da nossa sociedade como um todo”.

Além dela, outros alunos e ex-alunos estiveram presentes ao longo das comemorações que aconteceram nos dias 18, 19 e 20. Entre rodas de capoeira e oficinas, eles puderam prestigiar e participar ativamente da agenda de aniversário do Centro de Cultura, que também estava de portas abertas para receber o público.
Caminho do acolhimento, e a continuidade dos trabalhos
Saracura veio da Capoeira Angola da Bahia, e confessa que não foi bem recebida pelos movimentos de capoeira do Rio de Janeiro em geral. Porém, conheceu o Mestre em uma das rodas pela cidade, e ele acabou a convertendo em aluna. “Eu falei: ‘meu Deus, ele me acolheu tão rápido. O que é que está acontecendo?’, porque sempre era tão difícil. Eu pedia, queria e ninguém me aceitava. Mas o Mestre Manoel é super acolhedor”.
O acolhimento também é promovido no centro cultural. Durante a presença da equipe do jornal no evento, a combinação da música com os movimentos da roda atraiu principalmente a curiosidade de crianças das proximidades, que foram recebidas com sanduíche e refrigerante, e puderam acompanhar a performance do grupo de capoeira.

“Todas as pessoas que eu já vi que conversaram com ele e que quiseram conhecê-lo, ele sempre abriu as portas para receber”, comenta Sarah. “Vocês, eu, tantas pessoas que batem na porta, ele abre a porta para todo mundo, recebe todo mundo e compartilha com muita alegria, nessa festa que estamos vendo aí”.
Por fim, Mestre Manoel projeta os próximos passos e se diz engajado na formação de pessoas multiplicadoras. “A batalha é árdua, mas a gente continua, não pode parar. Vale a pena, vale a pena que o nosso objetivo maior é isso, é acordar o povo afro-brasileiro, né? Da sua própria cultura, de fazer eles não discriminarem a própria cultura, mas se valorizar, né? É dentro da cultura popular que eles vão encontrar o caminho da conscientização, entendeu?”, conclui.

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