14 de março, tempos de esperança
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Atualizado: há 2 dias
Por Carolina Vaz, publicado originalmente no Jornal O Cidadão
Foto de capa: Raysa Castro
Há pessoas que, quando se vão, tornam-se símbolos. Símbolos de valores, de bandeiras e de conquistas. Mas ninguém se vai sem ter deixado muitas memórias, inclusive de suas fragilidades, nas pessoas com quem mais convivia. Este é o caso de Marielle Franco, cujo assassinato completa oito anos nesse 14 de março. Quem conviveu com ela vai se lembrar do “corre” para conciliar estudo, trabalho e maternidade, da seriedade que mantinha em seus compromissos, mas também da sua gargalhada, da participação em bloco de carnaval e do otimismo na luta.
Pela primeira vez, chegamos ao dia que marca sua execução sem precisar pedir por justiça pela resolução do caso. Em 25 de fevereiro, os mandantes do crime foram condenados (veja detalhes no final da matéria).
Nesta matéria, que é também uma homenagem, conversamos com algumas pessoas que eram próximas de Marielle na amizade e na militância, dentro da Maré, para compreender suas percepções pessoais sobre o momento em que chegamos.
Um sopro de esperança na Justiça
Uma dessas pessoas foi o professor Rodrigo Magalhães. Ele conheceu Marielle na adolescência, quando ela se mudou para o conjunto habitacional próximo à paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, e eles se tornaram vizinhos. Os dois também foram catequistas da paróquia no mesmo período e, em 1998, quando Marielle teve a filha, Luyara, Rodrigo se tornou padrinho da criança. Os dois também conviveram quando ela atuou na Secretaria do CEASM e ele em projetos diversos na instituição como o Observatório e cursos de serigrafia e fotografia. Quando ela foi trabalhar com o deputado Marcelo Freixo, fora da favela, a convivência diminuiu, mas se manteve em função do laço entre compadre e comadre.
Ele se lembra com detalhes do dia 14 de março. Rodrigo adormeceu assistindo ao jogo do Flamengo e acordou com a ligação de um amigo que deu a notícia: “Ali, o aperto no peito e o coração esmagado foi a reação do momento”. Logo depois, ele foi acolher a afilhada na casa da mãe de Marielle. Ele resume o sentimento sobre chegar ao marco da data:
“A partir dali, todas as dores subsequentes vão deixando marcas. E essas marcas vão ganhando formas, vão ganhando caras no rosto, no carinho de cada pessoa. No levantar de placas, no levantar de faixas, pedindo justiça. (…) Pensar nisso é pensar na trajetória da Marielle. Pensar na justiça por Marielle e Anderson, muito mais do que só uma condenação da justiça, é uma prova de que a vida dela valeu”.
“Com essa condenação há um sopro de esperança, e é um sopro de esperança na democracia, na justiça, nos direitos das mulheres, da comunidade LGBTQIAPN+, de toda a favela e de todo aquele que treme com a injustiça e ousa não ficar calado”. — Rodrigo Magalhães

Rodrigo e Luyara em 2020. Foto: arquivo pessoal.
Uma reposta à sociedade
“Existe o alívio, mas existe a saudade, a dor, existe uma memória de coisas vividas e a ausência de quem nunca mais teremos”.
Para a educadora Thaís Paiva, que também conviveu com Marielle no CEASM no início dos anos 2000 firmando uma amizade, a condenação não apaga a dor de ter a memória de sua amiga passado por tudo que passou, mas também é uma resposta a uma população que passou oito anos pedindo justiça por Marielle e Anderson.
“É muito contraditório, porque ao mesmo momento que é não ter a pessoa, é também um alívio saber que os mandantes do assassinato foram condenados. (…) É uma resposta à sociedade, foi um feminicídio político. (…) Então eu acho que o fato de ter tido a condenação, mesmo que tardiamente, é uma resposta à sociedade, à Maré, para todos os amigos, mas principalmente para a família”. — Thaís Paiva

Thaís Paiva (a esquerda) e Nlaisa Luciano na premiação concedida ao CEASM pela mandata da vereadora Monica Benício. Foto: Arquivo CEASM.
O simbolismo da execução
“Ela era sempre muito presente, numa combinação muito forte de uma mãe jovem com alguém que também quer ter outras experiências”.
A memória de Marielle presente – literalmente – é de Lourenço Cezar, também professor, que dividiu os trabalhos na secretaria do CEASM com Marielle entre os anos de 2000 e 2005, aproximadamente. Apesar da convivência intensa, tanto nos compromissos de trabalho quanto na militância e nos momentos de lazer, a lembrança dessa época é de uma mulher, sobretudo, focada. “Ela tinha uma expressão que eu achava muito séria para a idade dela. (…) Em tudo que ela fazia, era muito focada”. Marielle tornou-se mãe nova, aos 19 anos de idade.
Lourenço lembra, em detalhes, de todo o processo de militância que levou Marielle ao cargo de vereadora: ela e outros integrantes e alunos do CEASM participaram da primeira campanha de Marcelo Freixo, em 2006, para deputado estadual. Eleito, ele contratou Renata Souza e depois Marielle. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), Marielle coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania. Lourenço conta ainda que “sentiu” que o partido a escolheria como candidata em 2016, pois ela tinha aparecido no horário político com um tempo considerável. Ele mesmo disse a ela que poderia acontecer e, de fato, em duas semanas ela comunicou a candidatura como vereadora.

Marielle em campanha na Maré.
Olhando para todo o percurso que ela percorreu até o cargo, e a sensação de vitória de ver uma mareense de esquerda tornando-se vereadora, Lourenço resume os sentimentos quanto a essa ausência que completa oito anos.
“Eu confesso para você que entre fazer toda essa revolução que a Marielle fez e ter ela aqui viva e podendo curtir a vida que ela merecia, sabe? Eu preferia ter a Marielle aqui, viva, podendo estar esquentando a cabeça com a Luyara (…) É muito frustrante tudo isso, muito frustrante. Ela foi a primeira de nós a botar uma cabeça fora d’água, fora da Maré e eles deceparam a gente assim com muita frieza”. — Lourenço Cezar
Um exemplo para outros assassinatos políticos
“A gente participava de muitas ações junto. Tinha o Se Benze que Dá, o Maré de Rock (…) A gente, na nossa juventude, atuava em inúmeras ações ali políticas e se fazia presente nesses locais”.
A ativista e comunicadora Gizele Martins, que já compôs a equipe do jornal, também tem suas primeiras lembranças de Marielle localizadas no CEASM, onde entrou como aluna do pré-vestibular. As duas sempre se encontravam, também, em momentos como manifestações, e a presença de Marielle na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ é vista por Gizele como uma força em prol dos interesses da favela: “A cada atuação na Maré, principalmente quando se referia à questão das operações policiais, assassinatos, que eu, enquanto comunicadora e outros comunicadores, cobríamos e puxávamos ações, ela estava sempre presente. Então, o que eu lembro dessa Marielle é uma Marielle sempre presente na atuação política da Maré”.

Marielle promoveu o 1º Encontro Direito à Favela em julho de 2017 no Museu da Maré. Foto: arquivo Museu da Maré.
Para ela, a data do assassinato, agora com os mandantes presos, explicita a necessidade de proteger pessoas defensoras de direitos humanos e fazer justiça pelas que foram assassinadas por motivação política.
“Chegar o dia 14 de março, mais um dia 14 de março, lembrando desse assassinato de Marielle e Anderson é continuar pedindo justiça e hoje pedir justiça por tantas outras mulheres assassinadas nesse país, tantos comunicadores, defensores de direitos, que são pessoas que têm uma atuação política de esquerda mas que têm sido ameaçadas, que são inclusive assassinadas”. — Gizele Martins
Inspiração para outras mulheres que lutam
“Foram dias de muito corre, mas a energia de Marielle era invejável. Veio então a eleição e passei a construir relação próxima por conta da pauta lésbica. (…) A partir das observações dela em conversas, fui pensando que, de fato, seria importante me voltar ao meu território”.
Dayana Gusmão, assistente social e fundadora da coletiva Resistência Lésbica da Maré, também conheceu Marielle no CEASM, mas se aproximou mais quando esta já estava na ALERJ. Ela destaca um momento em 2015, quando houve um evento de visibilidade lésbica na Maré e Marielle falou abertamente sobre sua bissexualidade. Dois anos depois, Dayana fundou a coletiva. Para ela, a condenação dos assassinos e dos mandantes de Marielle reacende a esperança na justiça e no processo democrático do país.
“Chegar a mais um 14M com as pessoas que calaram aquela gargalhada alta é um sopro de esperança individual e de esperança para os caminhos democráticos do país. Pra mim a gargalhada alta da Marielle era a marca dela. Talvez o que eu mais sinta falta. Contudo, como mulher de matriz africana, acredito que a gargalhada dela agora compõe as falanges das mulheres insubordinadas, que recuperam outras mulheres com a força da gargalhada que é ao mesmo tempo alegria e exigência de vida livre e digna”. — Dayana Gusmão

Homenagem a Marielle em bandeirão do coletivo Flamengo da Gente, exposto no Museu da Maré por volta de 2022.
A condenação dos mandantes
A conclusão do processo judicial sobre a execução de Marielle e Anderson se deu em 25 de fevereiro, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os mandantes do crime: Domingos Brazão e Chiquinho Brazão. Irmãos, os dois atuavam dentro do Estado: Domingos como conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e Chiquinho era vereador do município na data do assassinato; depois tornou-se deputado federal.
As investigações mostraram que os irmãos e seus aliados mantinham o controle sobre exploração imobiliária, serviços de segurança e outras atividades em bairros da Zona Oeste. Em 2016, Chiquinho Brazão tinha apresentado na Câmara dos Vereadores o PLC 174/2016, visando regularizar loteamentos na Zona Oeste, e sabia-se que os fins seriam condomínios de classe média e alta. Marielle foi contra, e junto a outros vereadores e vereadoras exerceu grande oposição ao projeto. Ela não era a única, mas foi selecionada para ser silenciada, como um recado a quem se opunha a este tipo de plano.
Por um lado, a execução de Marielle, que também atingiu Anderson Gomes, foi “escancarada”: em poucos dias já se sabia que não era um engano ou uma tentativa de assalto. Era um crime premeditado, fato comprovado até pela ausência de imagens das câmeras de rua. Por outro, os mandantes já tinham uma rede de cúmplices que garantiriam sua impunidade sobre o crime. Por esse motivo, junto a Chiquinho e Domingos, foram condenados também Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, por obstrução da Justiça e corrupção; Ronald Pereira, major da Polícia Militar; e Robson Calixto, ex-policial militar. Os assassinos, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, já estavam condenados e presos desde outubro de 2024.
O assassinato de Marielle e Anderson, 8 anos atrás, foi simbólico: eliminaram exatamente uma mulher negra, lésbica, favelada, que se opunha aos interesses de pessoas que já exerciam poder territorial. Todo esse símbolo não desaparece com a condenação, mas o desfecho mostra que a pressão da sociedade civil e família não deixou que a impunidade se mantivesse.




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