Fórum Favela Universidade reúne moradores de Manguinhos e da Maré para livro de contos
- há 2 dias
- 6 min de leitura
Texto e foto de capa: Christóvão Carvalho
Publicado originalmente no Jornal O Cidadão
No dia 26 de março, o Museu da Maré recebeu o lançamento do livro “É Necessário o Coração em Chamas: Contos de Manguinhos e da Maré”. A obra reúne 14 textos produzidos por moradores dos territórios, que participaram da 4ª edição da Residência Literária Favelofágica e transformaram suas reflexões em literatura. O evento contou com a presença de organizadores e participantes da residência.
Ficha técnica
Com a presença de amigos, familiares e moradores, seis autores mareenses lançaram contos a partir da 4ª Residência Literária Favelofágica, conduzida pelo Bando Editorial Favelofágico.
É Necessário o Coração em Chamas: Contos de Manguinhos e da Maré é uma realização colaborativa entre representantes dos territórios. A publicação é composta por:
Nlaisa Luciano, Taisa Falcão e Vanessa Almeida como organizadoras;
Adriana Kairos e Maura Santiago como Editoras-executivas da Maré e de Manguinhos, respectivamente;
André Gomes, Caio Oliveira, Ana Carolina Prado, Gabriel Gomes, Karla Prado, Leticia Oliveira, Lud Almeida e Maria Falcão como residentes de Manguinhos;
Carolina Alves, Fernando Batista, Ivani Figueiredo, Mauriceia Rocha, Raysa Castro e Rejane Barcelos (Rainha do Verso) como residentes da Maré;
Nlaisa Luciano, Matheus Frazão, Rafaela Cardoso, Rafaele Reis e Vanessa Almeida formando a equipe de produção.
A iniciativa é do Fórum Favela Universidade, com o apoio do Projeto Tecendo Diálogos e gestão da Coordenação de Cooperação Social da Fundação Oswaldo Cruz e do Museu da Vida Fiocruz.

O evento
Compondo a mesa de abertura, o diretor do CEASM/Museu Antônio Carlos Vieira (Carlinhos) abriu o evento e celebrou o lançamento de uma produção literária no Museu em tempos em que a internet dita um ritmo cada vez mais acelerado, com informações passando diante dos nossos olhos.
O anfitrião realizou uma breve análise sobre como os contos são importantes para a sociedade e como o livro em questão evidencia a realidade na periferia. “O conto é um tipo de escrita, de literatura consagrada, principalmente, no período do realismo, onde se falava da vida. E eu acho também que é muito importante a gente mostrar as vivências do dia a dia, também o cotidiano, as experiências da favela”.

Representando o Museu da Vida Fiocruz, o coordenador Alessandro Batista também participou do momento e contribuiu falando sobre o jornalista e escritor Lima Barreto, que foi conhecido por suas obras literárias, principalmente contos e romances, incluindo “O Moloque”, publicado em 1920. O conto traz uma reflexão sobre a vida na favela que, mesmo naquela época, evidencia as dificuldades que negros e pobres enfrentam para sobreviver em meio à sociedade.
Nlaisa Luciano e Vanessa Almeida completaram a abertura do evento também com breves palavras agregadoras.
Processo criativo
Em seguida, os residentes da Maré foram convidados a compor a mesa. Um a um, os autores revelaram detalhes da construção de seus textos e a imensa gratidão pela oportunidade no projeto.
A começar por Rejane Barcelos, autointitulada como Rainha do Verso, que revelou inspiração no escritor Ferréz, conhecido por aplicar a “literatura marginal” em suas obras. Ela explica que mesmo antes de ler, somos expostos à literatura de outras formas, e que apesar de aprender sobre artistas literários na escola, como Machado de Assis, “a gente que é favelado, a nossa literatura, ela vem de outros sentidos”.
Ela faz um paralelo de como uma história sobre violência na favela tem impactos diferentes entre quem está dentro e fora dessa convivência. “Fora da favela, as nossas dores são colocadas num banquete. São opções para se deliciar, chocar e entreter um certo tipo de pessoas. (…) Dentro vai ser: ‘ah, tá. Caveirão? Legal. E aí? Vai faltar luz? Quantos dias a gente vai ficar sem luz?”
Nessa explicação, a autora destrincha um pouco sobre o processo criativo de sua participação na obra, e de como se sentiu desafiada por Adriana Kairos a construir algo que saísse do literal para dar espaço à imaginação com elementos reais e reflexivos sobre a realidade na Maré.
Rejane concluiu: “Surgiu A Ferramenta Mágica, que é uma história infantil, que traz essa memória, que é uma memória que mora na infância do coração de eternas crianças mareenses. (…) E é um conto de Natal que eu trago vários elementos da favela (…) trago a nossa imaginação da pureza da infância. Que por mais que seja corruptível e corrompida por uma infância que é violada, ainda é muito forte, ainda mora em cada um”.
Do CEASM para a literatura
A influência do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM na construção do livro vai além do próprio espaço do museu. A presença da Nlaisa, Adriana Kairos, Carlinhos e Matheus Frazão traduz a forte ligação da instituição com o lançamento.
Além deles, Fernando Batista e Raysa Castro também compõem a lista de pessoas que estão ou estiveram representando o espaço em algum momento.
Raysa Castro foi comunicadora popular no Jornal O Cidadão e teve passagens pelo Curso Preparatório, Curso Pré-Vestibular (CPV) e Museu da Maré. Todos projetos do CEASM. Hoje, graduanda em Geografia na UERJ, ela escreveu “Viver na guerra cansa” sob um olhar reflexivo acerca do amor e da presença feminina na Maré.
Raysa relata suas emoções à época: “Eu estava muito num lugar de… muito ‘sem saco’ pra tudo. Muito de ódio, porque estava fazendo muita coisa. Quando eu topei escrever sobre, foi o momento que eu falei que eu queria me dar essa oportunidade para ter afinidade mesmo. De poder falar sobre aquilo que me afetava”.
Por fim, ela não mediu esforços para demonstrar satisfação pela residência. “Eu acho que o que mais me marcou foi poder estar num lugar onde a gente parava um pouquinho a nossa rotina e curtia a presença um do outro para falar sobre literatura, e favela, e as nossas vivências”.

O jovem Fernando Batista (22), por sua vez, está atualmente na equipe de comunicação no CPV. Ele escreveu “Festa no final do arco-íris” e utilizou seu momento de fala para mencionar a alta qualidade do ensino aplicado na residência, exemplificando obras de Homero e Conceição Evaristo. “Eu já participei de outros processos, de literatura, e assim, para mim esse foi o melhor que eu participei, que eu aprendi, que eu aprendi com as pessoas que estavam comigo”.
Sonhos, desafios e superações
Mauriceia Rocha, Carolina Alves e Ivani Figueiredo completaram a noite com suas falas carregadas de emoção e detalhes de suas participações.
No caso de Mauriceia, já possui experiência na escrita de romances, mas arriscou sair da zona de conforto criando “Olhos de Capitu”, um conto que aborda uma operação policial sendo transmitida na televisão.
Por outro lado, Carolina encontrou na residência uma oportunidade para sua primeira publicação literária em livro. Estudante do curso de Letras: Português-Literaturas, ela escreveu “Continuação de um sonho”, que conta a história de uma menina e sua avó.
Por sua vez, Ivani tem uma trajetória consolidada. É educadora social, pedagoga, pesquisadora e coordenadora do programa Miscelânea Black. Mesmo assim, a cria da Maré comemorou o destaque recebido dentro da própria favela. “Eu acho que foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de fazer parte de algo da Maré, de ter o nome registrado em alguma coisa”.
Escrito por Ivani, “O Mistério do Campo da Paty” analisa a pluralidade de eventos ocorridos no local ao longo da história e detalhes do dia a dia percebidos por quem vive ao redor.

Ao fim do evento, os presentes receberam um exemplar do livro de contos e puderam conhecer também o Catálogo Favela Universidade – Maré e o Catálogo Favela Universidade – Manguinhos, frutos também do Fórum Favela Universidade, que reuniram centenas de trabalhos bibliográficos sobre as favelas em suas respectivas versões.
A equipe do jornal esteve no lançamento das obras, que ocorreu em 2025. Confira em detalhes na matéria.
Lançamento em Manguinhos
O lançamento de “É Necessário o Coração em Chamas: Contos de Manguinhos e da Maré” acontecerá também em Manguinhos.
O evento está previsto para acontecer ainda este mês de abril, sem data confirmada. Para mais informações, acompanhe as redes sociais do Fórum Favela Universidade e do Museu da Maré.
Os exemplares serão distribuídos durante o evento. Posteriormente, a disponibilidade será informada pelos canais oficiais do projeto.





Comentários