top of page
CEASM_site-02.png

Museu da Maré chega aos 20 anos como referência da museologia social

  • há 2 dias
  • 9 min de leitura

Foto de capa: Fernanda de Souza

Entrevistas: Carolina Vaz

Texto por Christóvão Carvalho, publicado originalmente no Jornal O Cidadão


No dia 8 de maio, o Museu da Maré celebrou 20 anos de história, memória e resistência popular. Primeiro museu criado em uma favela brasileira e uma das referências da museologia social no país, o espaço reuniu moradores, artistas, pesquisadores e parceiros em uma programação marcada por exposições, apresentações culturais e reflexões sobre o papel do museu na preservação da memória mareense. O aniversário também reforçou a trajetória de luta do espaço pelo direito de existir.


Tempo do encontro


A programação de aniversário dos 20 anos do Museu da Maré começou com a abertura da exposição temporária “Maré é Mar”, fruto de uma parceria entre o CEASM e o grupo de pesquisa “Mídias, Redes e Jovens”, do curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). A mostra reúne fotografias, podcasts e narrativas produzidas por jovens do Programa Jovens Talentos FAPERJ e do Ecoa Maré a partir de debates sobre racismo ambiental e seus impactos na região.


A professora Carla Baiense, coordenadora do projeto, destaca que a exposição buscou apresentar a relação dos jovens com espaços na Maré que são frequentemente associados apenas ao abandono ambiental, como a Baía de Guanabara, o Parque Ecológico e a Colônia de Pescadores. “A gente achava que encontraria somente sujeira, descaso e uma paisagem degradada. Mas os jovens encontraram beleza no meio do caos. Existe um olhar de muito amor ao território”.

A professora Carla Baiense, coordenadora do projeto ‘Maré é Mar’, destacou o olhar dos jovens mareenses sobre a relação entre território, memória e meio ambiente. Foto: Ana Cristina da Silva


Segundo Carla Baiense, o projeto Maré é Mar consistiu em encontros, ao longo de 2025, que reuniram universitários e jovens do CEASM em formações sobre racismo ambiental, reportagem, fotografia e produção de podcast. A experiência gerou materiais diversos, como reportagens e trabalhos acadêmicos por parte dos universitários e ainda quatro episódios do podcast “Maré é Mar”, que debatem temas como educação, trabalho, saneamento básico e saúde. Ela comentou, sobre o aproveitamento do projeto pelos estudantes da UFF: “Muitos produziram materiais sobre isso de maneira subsequente. Reportagens, TCCs. Então eu acho que tudo isso foi um ganho muito bacana. Além da surpresa de conhecer o museu. Eles ficaram muito encantados com o Museu da Maré também”.


Os próprios participantes ajudaram a construir o percurso da exposição agora presente na galeria do Museu. Gustavo Ferreira Farias (16), morador do Conjunto Bento Ribeiro Dantas e integrante do projeto Ecoa Maré, expôs três fotografias na mostra, todas relacionadas ao trabalho de pescadores da região e aos impactos ambientais na Baía de Guanabara. “Eu quis mostrar ali o dia a dia dos pescadores. De como era o trabalho deles e o que eles faziam para fazer o ganha-pão deles, e o lixo atrapalha muito. Tanto que tem cada vez menos peixe na Baía de Guanabara, e isso vai afetar famílias, vai afetar eles mesmos, os moradores”.


A exposição “Maré é Mar” segue aberta ao público no Museu da Maré, de terça a sexta-feira, das 9h às 13h e das 14h às 17h, e aos sábados, das 10h às 14h.


Gustavo Ferreira Farias, integrante do projeto Ecoa Maré, participou da construção da exposição ‘Maré é Mar’ a partir de reflexões sobre território e racismo ambiental. Foto: Yago Melo.


Tempo da música

Após a abertura da exposição, moradores e convidados participaram de um café da tarde organizado no pátio do museu antes do início das apresentações culturais. Em seguida, a Camerata Uerê realizou um concerto com seis violinistas e dois violoncelistas, interpretando músicas como “Trenzinho Caipira”, “Cidade Maravilhosa”, “Anunciação”, “Rap da Felicidade”, “Eu Só Quero um Xodó” e “Asa Branca”.


A apresentação foi conduzida por integrantes do projeto Uerê, que atua há quase três décadas na Maré. A educadora e gestora do projeto, Yvonne Bezerra de Mello, também discursou parabenizando e reconhecendo a força do Museu em 20 anos de iniciativas no território. “Foi uma conquista para a comunidade e eu sei como foi difícil. Não foi fácil, como nada é fácil quando se quer fazer alguma coisa”, afirmou.

Yvonne Bezerra de Mello participou da celebração dos 20 anos do Museu da Maré ao lado de integrantes do Projeto Uerê. Foto: Ana Cristina da Silva.


Após a apresentação, o público cantou parabéns pelos 20 anos do Museu da Maré e pôde saborear um bolo comemorativo que foi distribuído a todos.


Tempo da memória

A programação também contou com um momento inspirado no tradicional Chá de Memórias, atividade recorrente do Museu em que moradores compartilham lembranças a partir de objetos históricos reunidos no espaço.


Desta vez, a atividade aconteceu em formato adaptado. Os objetos foram postos em uma roda no pátio, e a gestora Cláudia Rose relembrou o processo de construção do acervo e a colaboração dos moradores em sua criação.


Em especial, a anfitriã comentou sobre a representação da palafita presente na exposição de longa duração do museu que remete ao período das palafitas na Maré. “Ele foi todo ambientado, tudo que tem ali foi pensado por pessoas que moraram em barracos. Isso tudo foi fruto de pesquisa com fotografias, com textos e com depoimentos de pessoas, inclusive na véspera (da inauguração), tinha gente lá dentro da palafita, sentada na cama falando assim: ‘mas ainda falta isso, ainda falta aquilo’”, contou Cláudia.


A também fundadora do museu Marilene Nunes complementou relembrando o processo de arrecadação dos objetos que hoje fazem parte do acervo. “Eu batia na porta de cada morador perguntando: ‘tem um penico? uma moringa? um bule?’. E as pessoas perguntavam pra quê eu queria aquilo. Era para construir um museu que guardasse a memória do povo da Maré”.

Obras para a exposição A Maré em 12 Tempos. No alto, está a palafita ainda em estágio inicial de construção. Foto: ADOV/Museu da Maré.


Tempo da caminhada

Seguindo a programação, o músico Lindenberg Cícero da Silva, conhecido como Bhega (67), guiou um cortejo cultural com sua tradicional bicicleta de som pelas ruas da Maré em direção ao CEASM, instituição diretamente ligada à criação do Museu da Maré. O trajeto foi acompanhado por moradores, artistas e convidados que carregaram faixas e estandartes em comemoração aos 20 anos.


Presente na inauguração do museu em 2006, Bhega comentou a emoção de participar também da celebração dos 20 anos. “Manter um museu dentro da favela não é fácil. Mas isso aqui é alegria, é vivência, é força. E eu fico feliz por ter vindo aqui e ter, poxa, encontrado um montão de amigos meus aí. Todo mundo com cabelinho branquinho. Que bom. Maravilha estar aqui na Maré, estar aqui no museu”.

Figura histórica da cultura popular na Maré, Bhega participou do cortejo em homenagem aos 20 anos do museu. Foto: Ana Cristina da Silva.


Ao falar sobre a exposição de longa duração do museu, o músico definiu a experiência de visitar o espaço como “um túnel do tempo”.


“O meu barraco (palafita) era igualzinho o barraco do museu. Eu entro naquele barraco e lembro da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos. E dá uma saudade danada. Parece que estou entrando na minha casa”, comentou.


Ao chegar ao CEASM, o público acompanhou uma apresentação do Grupo de Capoeira Maré de Bambas. Crianças do Preparatório e moradores que acompanhavam o cortejo participaram da roda, que reuniu integrantes do grupo e outros praticantes de capoeira presentes no evento.


No fim da tarde, o cortejo encerrou o percurso retornando ao museu para a apresentação teatral “Querô – Sempre uma reportagem maldita”, adaptação da obra de Plínio Marcos realizada pelo Coletivo Corte. A apresentação fechou o dia que marca os 20 anos do espaço.


Tempo da transformação

O museu ocupa o espaço onde funcionava a antiga fábrica da Companhia Libra de Navegação, empresa ligada ao setor portuário e marítimo do Rio de Janeiro. A presença da estrutura representava a característica marítima existente na Maré, principalmente pela proximidade com a Baía de Guanabara.


A transformação do antigo espaço industrial em museu aconteceu entre o fim dos anos 90 e início dos anos 2000, a partir de um acordo de comodato com o Grupo Libra, proprietário do imóvel. Para a realização do Museu da Maré, um movimento coletivo reuniu integrantes do CEASM, da área pública e do Departamento de Museus e Centros Culturais (DEMU), antigo órgão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


O poeta, museólogo e professor na Unirio Mario Chagas é um dos que colaboraram para a construção do espaço na Maré. Na época, ele conheceu o trabalho desenvolvido pela Rede Memória do CEASM, articulada por Cláudia Rose – atual gestora do Museu da Maré – e se aproximou da instituição mareense. “Eu passei a frequentar aqui, a Maré, com a Cláudia, com oficinas de museu, museologia, debatemos muito, até que o CEASM conseguiu a disponibilidade desse espaço onde nós estamos”.


Antes da inauguração oficial do Museu da Maré, o espaço já era utilizado pelo CEASM como uma Casa de Cultura, recebendo atividades comunitárias, oficinas e ações ligadas à memória e à cultura local. Com o tempo, o trabalho desenvolvido ajudou a consolidar a proposta museológica que seria oficializada anos depois.


Em 8 de maio de 2006, o local foi oficialmente inaugurado como Museu da Maré e passou a abrigar exposições, acervos montados com objetos doados por moradores, cursos, reuniões comunitárias e peças teatrais. Outras atividades de projetos do CEASM também passaram a acontecer eventualmente por ali, como aulas do Curso Pré-Vestibular e cursos do Jornal O Cidadão.


O músico e então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, e Bhega durante a inauguração do Museu da Maré, em 2006, evento que reuniu moradores, estudantes e coletivos culturais do território. Foto: Cristiane Barbalho.


Porém, a relação com o imóvel ganhou tensão em 2014, quando o Grupo Libra iniciou um processo de reintegração de posse do terreno. O episódio gerou mobilizações em defesa do museu e acendeu debates sobre o direito à memória nas favelas. Na época, moradores e pesquisadores argumentavam que o espaço já havia sido incorporado à vida cultural da Maré após anos de uso comunitário.


Para Mario Chagas, esse foi um dos momentos mais marcantes da trajetória do museu, em virtude da grande mobilização de setores da sociedade contra a reintegração de posse do imóvel pelo Grupo Libra. Ele relembra que artistas, moradores e apoiadores realizaram um grande cortejo cultural pela Avenida Brasil em defesa do espaço.


Artistas, moradores e representantes caminham com cartazes e estandartes em defesa do Museu da Maré rumo a Avenida Brasil, em 2014. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


Durante os anos de disputa judicial, o caso mobilizou instituições culturais, pesquisadores e moradores em defesa do museu. Em paralelo, o acervo foi tombado pelo município como forma de proteção patrimonial.


O desfecho veio em 2018, quando o Grupo Libra decidiu doar o imóvel ao CEASM após anos de negociação e pressão pública. A transferência, no entanto, só foi oficializada em 2019, após o pagamento dos custos burocráticos da regularização da escritura, viabilizado com apoio de campanha de arrecadação e das organizações alemãs Misereor e Adveniat.


O professor completa sobre os momentos de resistência ainda em 2014: “Foi uma vitória da qual eu tenho imenso orgulho de ter participado junto de artistas, músicos, poetas. Foi um dia lindo e eu estava muito inspirado. (…) Inventamos muitas coisas por aqui, o nome do movimento chamava-se Maremoto, brincando com a ideia de que a Maré é motor, ‘a Maré é moto, isso é um maremoto’, e assim fomos pelas ruas. Aquele momento foi marcante”.

“Um museu que está em conexão plena com a vida e o movimento”, diz o professor Mario Chagas sobre o Museu da Maré. Foto: Ana Cristina da Silva.


Tempo da referência

A influência do Museu da Maré ultrapassou os limites da comunidade e contribuiu para a criação e fortalecimento de iniciativas como o Museu de Favela (MUF), o Museu Vivo de São Bento, o Ecomuseu Nega Vilma e outros projetos ligados à preservação da memória popular.


O espaço também participou da articulação de iniciativas que fortaleceram a criação da REMUS-RJ, a Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro, responsável por conectar museus comunitários, ecomuseus e experiências populares de memória em diferentes regiões fluminenses.


Estando presente no evento de aniversário, a cofundadora do Museu das Remoções, Sandra Maria Teixeira (58), afirmou: “O Museu da Maré é uma referência dentro da museologia social, na organização das exposições, na construção da memória da comunidade e no trabalho social desenvolvido dentro do território. (…) Não é só um trabalho de memória. É um trabalho de resistência, um trabalho social, um trabalho que investe no desenvolvimento social da comunidade”.


Em 2026, o impacto do museu também culminou em um Projeto de Lei apresentado na Câmara dos Deputados que propôs transformar o dia 8 de maio — data de inauguração do Museu da Maré — no Dia Nacional da Museologia Social, reconhecendo a importância do espaço para a preservação da memória popular e para o surgimento de novas experiências museológicas no país.

A cofundadora do Museu das Remoções, Sandra Maria Teixeira, destacou o papel do Museu da Maré como referência da museologia social no país. Foto: Ana Cristina da Silva.


Tempo da esperança

Em duas décadas de existência, o Museu da Maré passou boa parte da sua trajetória lutando para continuar de portas abertas em um lugar historicamente marcado pela falta de investimento público e pelo apagamento das memórias periféricas.


Mesmo diante das dificuldades, os últimos 20 anos serão lembrados pelos ensinamentos sobre: cultura, sociedade e memória popular; a formação de talentos e o lazer de moradores; o debate sobre direitos humanos e a história da favela.


Em um território que reivindica o direito à memória, a expectativa é que o museu continue atravessando gerações, mantendo viva a conexão entre passado, presente e futuro na Maré.


Veja mais fotos do aniversário do Museu no post original do Jornal O Cidadão

 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
NovaLogoCEASM.png

Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, organização não-governamental que há 28 anos disponibiliza acesso a cultura e educação aos moradores da Maré.

(21) 2561 4604

(21) 98485 7577 (whatsapp)
contato@ceasm.org.br

logo whatsapp branco.png
  • Botão para o Instagram do ceasm
  • ícone do facebook em branco
  • Acesse o youtube da CEASM
  • LinkedIn
bottom of page