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Em cartaz, espetáculo adapta livro sobre ocupação militar na Maré

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  • há 7 dias
  • 6 min de leitura

Texto por Christóvão Carvalho, publicado originalmente no Jornal O Cidadão em 12/12/2025

Foto de capa: Ana Cristina da Silva.


Com momentos leves e intensos, o projeto Entre Lugares Maré apresenta o espetáculo “Entre Bombas, Balas, Confetes e Serpentinas”, cuja estreia no Museu da Maré aconteceu no dia 05 de dezembro. A obra aborda o cotidiano da periferia carioca e histórias que marcaram o território.


Composta pela escrita de Matheus Frazão e encenação idealizada por Renata Tavares, na peça vinte e oito artistas entram em cena inspirados pelo livro “Militarização e Censura: a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”, da jornalista e comunicadora popular Gizele Martins.


A obra original analisa os impactos da ocupação militar na Maré, ocorridos entre 2014 e 2015, e reúne experiências vividas pela autora na época.


Todas as sessões são gratuitas, sendo que as exibições anteriores aconteceram nos dias 5, 6, 7 e 12. As demais sessões estão marcadas para 13 e 14 de dezembro, às 19h30, na Avenida Guilherme Maxwel, nº 26. Atenção: O espetáculo possui sons inesperados, local com ruído, luzes intensas e luzes oscilantes, que podem afetar espectadores fotossensíveis e neurodivergentes.


Militarização e censura


Publicado em 2019, o livro de Gizele Martins é uma dissertação de mestrado do programa de Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


No decorrer das páginas, o leitor encontra relatos, denúncias, documentos e episódios de censura, intimidação e violência sofridos por moradores, comunicadores e coletivos locais durante o período da intervenção das Forças Armadas, que ocorreu entre 2014 e 2015, coincidindo também com a realização da Copa do Mundo no Brasil.

O processo de adaptação ao teatro começou há alguns anos, durante uma atividade de leitura performática do mesmo livro, no próprio Museu da Maré. Na época, a atriz e produtora Natasha Corbelino realizou trabalhos colaborativos com o Museu e o Entre Lugares, e trouxe a sugestão.


Apenas em 2024, a coordenação do projeto sugeriu o uso do livro ao dramaturgo Matheus Frazão, que diz ter sido um desafio, mas analisa o bom trabalho aplicado no Entre Lugares: “Inicialmente a gente tem uma pedra bruta, que é o livro da Gizele. Eu faço a lapidação dessa pedra bruta, e a encenação, a cenografia e a iluminação dão o toque final a ela. Dão a estética dessa pedra, né?”.


Por sua vez, Gizele concedeu total autonomia criativa, pois acredita que o espírito de coletividade e comunicação comunitária permitem uma análise crítica do material. “Quem é da favela vai saber lidar com algo… e é uma confiança política. Que não vai mexer na ética do livro. Então eu falei, ‘é de vocês… não vou mexer em uma vírgula.’ (…) E aí, eu só vim hoje”.


Gizele Martins esteve no Museu da Maré para a estreia da peça inspirada em seu livro: “Militarização e Censura: a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”. Foto: Ana Cristina da Silva. 
Gizele Martins esteve no Museu da Maré para a estreia da peça inspirada em seu livro: “Militarização e Censura: a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”. Foto: Ana Cristina da Silva. 

As adaptações para o palco

Enquanto o livro nos encoraja a imaginar a época a partir das experiências da autora em registros em primeira pessoa, “Entre Bombas, Balas, Confetes e Serpentinas” nos permite a imersão nos fatos ocorridos durante a ocupação, ao mesmo tempo que expande e atualiza as vivências da periferia de hoje. Com grande elenco, novos personagens e a diversidade de gênero também foram implementados.


O estilo linguístico encontrado na dramaturgia é outra das novidades em relação ao livro de 2019, já que este possui uma escrita acadêmica, enquanto o roteiro explora a fidelidade característica da oralidade da favela.


Luana Domingos (34), conhecida pelo seu nome artístico, Nega Lu, é moradora da Nova Holanda e um dos nomes no cast. Sua participação inicial fica por interpretar dona Orosina Vieira, figura histórica e referenciada como a primeira moradora da Maré.


Entre outros personagens, a artista interpreta figuras que estão atreladas às suas vivências, e entende que vivê-las no palco vai além da ficção. “Não é só representar um personagem. É, talvez, me olhar através desse espelho também e falar assim: ‘De repente, você é tudo isso aí. De repente, você é 3, 4, 5 personagens ao mesmo tempo”.


Para o espetáculo, Nega Lu – e seus colegas – tiveram pouco mais de um mês de preparação. Diante disso, ela relata o sentimento da véspera. “Muito nervosismo, porque a gente ensaia, literalmente, todo dia. E eu nunca tive preparação vocal”. E finaliza reconhecendo a união do projeto: “Mas o Entre Lugares é tão f… que a cada momento eu viro uma esquina, tem alguém com mel para mim. Eu viro a esquina, ‘vamos treinar a voz’ (…) Então, tem o acolhimento e o cuidado com a equipe, que todo mundo tem com todo mundo, que isso me faz lembrar o porquê que eu estou aqui”.


À direita, Nega Lu interpreta dona Orosina Vieira. Ao seu lado, a artista Maria Lucilda contracena. Foto: Ana Cristina da Silva. 
À direita, Nega Lu interpreta dona Orosina Vieira. Ao seu lado, a artista Maria Lucilda contracena. Foto: Ana Cristina da Silva. 

Além de Nega Lu, outros vinte e oito nomes fazem aparições: Andryelle Lima, Angel Lua, Babi Alcântara, Bruno Martins, Carlos Emanoel, Davi Souza, Emilly Sampaio, Graziele Oliveira, Jade Cardozo, Kaôrí Amaré, Katiaa Deusa, Kevin Magala, Lady, LIMMA, Maicon Douglas, Maria Lucilda, Miguel Furtado, Milena Ferreira, Mirella Souza, Paula Mendonça, Renena, Rodrigo Beraponti, Thayná Rodrigues, Vick Lucas, Victtor Quintanilha e Vitor Gabriel, com Matheus Tavares na música.



Em cena, uma parte dos atores interpretam os moradores da favela, enquanto outros fazem o papel de militares. Foto: Ana Cristina da Silva. 
Em cena, uma parte dos atores interpretam os moradores da favela, enquanto outros fazem o papel de militares. Foto: Ana Cristina da Silva. 

Mistura de leveza e tensão

O espetáculo também rememora fatos que ficaram marcados pela violência policial. Como exemplo, temos o caso de Vitor Santiago Borges, em 12 de fevereiro de 2015. Na época, com 19 anos, o jovem estava em um carro junto de quatro amigos, quando voltava de outro bairro e adentrou a favela do Salsa e Merengue. Sem perceber de onde, os ocupantes tiveram o carro alvejado por militares. O jovem foi atingido nas pernas e no tórax, chegando a ficar dois dias em coma. Para sobreviver, Vitor precisou ter uma perna amputada.


Matheus Frazão. Foto: Ana Cristina da Silva. 
Matheus Frazão. Foto: Ana Cristina da Silva. 
“Tem o lance de falar do Caveirão, ‘eu vou levar sua alma’, eu falei, ‘gente, é realmente assim’. Isso é legitimado pelo Estado e são agentes do Estado que provocam, porque é uma das coisas que permeiam essa dramaturgia, né? Antes mesmo de existir essa morte letal, essa morte da arma, existe essa morte psicológica desse corpo que adoece, desse corpo que se amedronta, desse corpo que fica ansioso, desse corpo que, ‘putz, meu filho não chegou, e aí será que vai chegar?”

– Matheus Frazão, dramaturgo da peça “Entre Bombas, Balas, Confetes e Serpentinas”


Os momentos de tensão, porém, se misturam com os outros momentos do cotidiano da favela, através das características das famílias do território, juntando o bom humor com a oratória carioca, o que acaba arrancando boas risadas do público.

“Pra mim é uma questão, porque quando foi feito o convite, ter colocado essa família que festeja, que é do samba, é uma concretização política, porque eu falei, ‘cara, não dá pra ficar também só nessa violência, né?”, comenta Frazão.


Homenageados

Ao longo da apresentação, Gizele se mostrou imersa e emotiva, chegando a reconhecer e repetir frases de seu livro nas falas dos personagens.

No fim da primeira noite, além de Gizele Martins e Matheus Frazão, a coordenadora Vanessa Greff e a diretora teatral Renata Tavares – ambas do Entre Lugares – receberam homenagens pela realização da peça.


Após assistir sua obra no teatro, Gizele expressou: “O Entre Lugares transformou em algo muito melhor do que um texto! Achei sensacional, porque o meu livro é uma dissertação de mestrado, né? Militarização e censura. E transformar num espetáculo desse eu nunca conseguiria sozinha”.


Centralizados, da esquerda para a direita, Vanessa Greff, Renata Tavares e Matheus Frazão foram homenageados após o espetáculo. Foto: Ana Cristina da Silva. 
Centralizados, da esquerda para a direita, Vanessa Greff, Renata Tavares e Matheus Frazão foram homenageados após o espetáculo. Foto: Ana Cristina da Silva. 

Outra adaptação

Além da adaptação do Entre Lugares, os eventos do livro também podem ser encontrados no documentário “Cheiro de Diesel”, lançado no Festival do Rio, em 2025, sob a direção da própria Gizele Martins e de Natasha Neri.


Nele, somos convidados não só a relembrar o período da ocupação, como também reúne memórias de violência militar nas favelas, como a Chacina do Salgueiro, em 2017 e a prisão e tortura de 10 homens após uma ação na Penha, em 2018.

A equipe do Jornal O Cidadão esteve no evento de lançamento da obra e você pode encontrar mais detalhes, acessando a matéria aqui.


Por fim, Gizele revela uma conversa com o dramaturgo: “Fui assistir uma peça com o Frazão. Eu falei ‘você não viu o filme, mas o filme termina com pagode’. Ele disse, ‘Gizele, a peça termina com samba’. Eu falei, caramba, está vendo? A linguagem de quem pensa a favela. Porque não é para terminar com um choro da depressão”.


Os personagens dançam em um dos momentos da peça. Matheus Frazão e Gizele Martins podem ser vistos na plateia. Foto: Ana Cristina da Silva. 
Os personagens dançam em um dos momentos da peça. Matheus Frazão e Gizele Martins podem ser vistos na plateia. Foto: Ana Cristina da Silva. 

Veja mais fotos na postagem original


 
 
 

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