Chá de Memórias levanta debates na semana da Consciência Negra
- contatoekloos

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Texto por Carolina Vaz, publicado originalmente do Jornal O Cidadão
Foto de capa: Ana Cristina da Silva
A literatura afrobrasileira foi a ferramenta escolhida para a tradicional troca de experiências no Chá de Memórias, evento do Museu da Maré realizado em edição especial do Dia da Consciência Negra, na última terça-feira, 18 de novembro. Instalado na exposição de longa duração, o evento reuniu desde adolescentes a moradores mais velhos, para compartilhar suas memórias incitadas pela literatura. Na abertura, a coordenadora do Museu da Maré, Cláudia Rose, comentou sobre a importância de se tomar consciência do racismo para assumir uma postura antirracista, e que a decisão de fazer o evento temático passa pela perspectiva de educação antirracista que o CEASM e Museu da Maré tentam promover.
Geralmente, o Chá de Memórias dispõe de objetos históricos da Maré, componentes do acervo da exposição 12 Tempos da Maré, mas desta vez foi diferente. Em cima de um pano colorido no chão estavam dispostos livros da Biblioteca Elias José, da autoria de escritores e escritoras negros e negras, muitos que passam pelo tema do racismo em sua narrativa. Anteriormente, trechos de alguns desses livros haviam sido escolhidos por adolescentes que participam do Programa Jovens Talentos FAPERJ no Museu da Maré, e os bilhetes estavam disponíveis para leitura pelo público presente.

Algumas das obras escolhidas pelos jovens foram Ponciá Vivêncio, de Conceição Evaristo; O Perigo de uma História Única, por Chimamanda Adichie; e ainda Quarto de Despejo e Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de Jesus. Outros livros presentes no centro da roda eram Morro do Dragão, O Crime do Cais do Valongo, Os Condenados da Terra, Meio Sol Amarelo, Na Minha Pele e Todos São Bem-Vindos.

A percepção do racismo na própria vida
A partir dessas leituras, muitos começaram a lembrar de suas experiências pessoais com o racismo, começando por Matheus Frazão, que fazia a mediação no encontro. Ele compartilhou o processo no qual ele próprio descobriu sua negritude, quando uma professora do Ensino Médio questionou como ele se sentia sendo uma das poucas pessoas negras da turma. Aos poucos ele foi reconhecendo como alguns acontecimentos, inclusive da sua infância, demonstravam o racismo como agente. Ele contou, ainda, que um ponto importante de sua consciência racial foi ter iniciado as leituras de Carolina Maria de Jesus quando era Jovem FAPERJ no Museu, em 2013. Neste percurso, ele hoje reconhece que assumir aspectos da cultura negra o ajudou a tornar mais positiva sua vivência.

“Então quando eu me percebi, eu me imbuí de ser essa pessoa negra, quando eu me assumo com essa face, eu assumo pra mim também o samba, eu assumo pra mim o candomblé, eu assumo tudo isso que é a raiz da negritude. Porque se não a gente também vai ficar só nessa coisa que é sofrida, que sofre mesmo, sendo que ser negro é algo muito maior! A gente tem uma cultura muito vasta, a gente tem uma culinária muito vasta, a gente tem uma música muito vasta”.
— Matheus Frazão, arte-educador do Museu da Maré
No encontro, também reconheceu-se que muitos dos comportamentos impostos a crianças negras por seus pais são movidos pelo racismo, mas também são uma forma de proteção. É o caso do testemunho de Laryssa Kathelen, que contou sobre sua mãe e sua avó sempre terem dito que quem era “de cor” não poderia andar suja e desarrumada, e isso criou nela um instinto de sempre sair de casa arrumada. “Até hoje, qualquer lugar que eu vou eu não consigo sair de qualquer jeito. Tenho que estar sempre muito arrumada, quando eu era criança eu não podia me sujar, porque criança não podia ficar suja, e eu achava que, nossa, minha mãe era muito chata, mas era só o racismo falando que uma mulher negra com uma criança negra suja remete ao estereótipo que já conhecem, e minha mãe sempre evitou isso”, compartilhou.

A opressão sobre o cabelo da mulher negra
Outro assunto, que reuniu experiências de mulheres entre 20 e 60 anos, foi o cabelo. Na verdade, todas as cobranças e preconceitos ligados ao cabelo de mulheres negras. Cláudia Rose contou sobre ter passado a infância utilizando pente quente – um tipo de pente de ferro que, uma vez quente, alisava o cabelo crespo – e uma pasta para alisar. Ela contou que alisava o cabelo com o pente sempre antes de ir para a escola, e as crianças lá molhavam o cabelo dela de propósito para tirar o alisamento. Depois, ela utilizou uma pasta, um produto que impediria que o cabelo voltasse a ficar crespo com água, mas chegou a ter graves queimaduras com esse uso, tendo apenas 10 anos de idade.
Thamires Ribeiro, conservadora-restauradora no Museu, também compartilhou sua experiência ligada ao cabelo. Nascida numa família muito miscigenada, ela teve uma experiência particular pela pele e olhos claros, mas mesmo assim também alisou o cabelo na adolescência e depois começou a transição para voltar ao natural. Este foi o momento que destacou na sua experiência com o racismo direto, pois a partir do cabelo natural, cacheado, ela começou a ser desqualificada e criticada. “Eu já ouvi coisas muito ruins com relação ao cabelo, e é até uma reflexão, de que minha pele é clara, meu olho é azul e o único traço que eu tenho ligado à raça negra é o único que sofreu discriminação a vida inteira. Se não existe racismo, por que o único traço negroide que eu tenho é o que eu sofri comparação e perseguição a vida inteira?”.

Demais depoimentos no evento demonstraram que, hoje, o racismo acontece por vias sutis mas não deixa de acontecer. É no elogio ao cabelo alisado, a crítica ao cabelo natural, o elogio a um jovem negro que “fala bem”, a suposição de que a pessoa negra está sempre trabalhando e não exercendo seu lazer.

Após todas as falas, o público ainda contou com uma apresentação de parte da turma Jovens FAPERJ 2024-2025, na qual cantaram e encenaram músicas como O Morro Não tem Vez e Olhos Coloridos. Finalizando, houve a tradicional assinatura dos presentes no tecido do Chá de Memórias.










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