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Museu da Maré celebra seus 16 anos

Por Carolina Vaz – publicado originalmente no Jornal O Cidadão

Foto de destaque: José Bismarck


No dia 21 de maio, o Museu da Maré comemorou seus 16 anos. O evento, cuidadosamente pensado pelas equipes do Museu, contou com uma programação cultural aberta para o público, recebendo moradores, apoiadores, amigos e admiradores do Museu e do CEASM. A comemoração, a primeira desde 2019, reuniu 200 pessoas e contou com uma mesa de abertura, apresentações de teatro, hip-hop, capoeira e grupo de batuque, além do parabéns com bolo, refrigerante e salgadinho. A data marcou ainda a reabertura da galeria do Museu, com a exposição temporária O Lugar Onde Moro, criada pelas bolsistas do projeto Jovens FAPERJ.

A alegria de reabrir e receber os amigos

O evento se iniciou com uma mesa de abertura, que contou com as presenças da diretora do Museu Cláudia Rose, o diretor do CEASM Luiz Antônio de Oliveira, o mestre de capoeira Mestre Crocodilo, a diretora do Entrelugares Renata Tavares, e Rute dos Santos, bolsista do Museu no projeto Jovens FAPERJ. Acostumados a fazer as apresentações no Museu, Renata Tavares e Mestre Crocodilo falaram sobre a alegria de poder participar novamente de um evento desse porte aberto ao público, após mais de dois anos da pandemia. Para Renata, é uma comemoração importante para o Entrelugares, que se encontra tão bem recebido no Museu desde 2016: “Esse espaço, do Museu da Maré, nos acolhe tão bem, é a nossa casa de verdade. É um prazer a gente estar comemorando junto com vocês esses 16 anos, que também são 16 anos de debutante mesmo”, comentou, lembrando que em 2021 não foi possível comemorar os 15 anos. Mestre Crocodilo destacou a importância da parceria entre o Museu e o grupo de capoeira Maré de Bambas, garantindo um espaço para o grupo: “É um prazer estar nessa parceria com o Museu, estar podendo ajudar a criançada com a prática da capoeira que é muito fundamental, mas não só a capoeira como a dança, o hip-hop e outras atividades”.

Compuseram a mesa de abertura, da esquerda para a direita: Renata Tavares, Luiz Antônio de Oliveira, Cláudia Rose, Rute dos Santos e Mestre Crocodilo. Foto: José Bismarck.


A diretora do Museu, Cláudia Rose, falou sobre o período em que o Museu ficou fechado para o público, de mais de um ano, o que impossibilitou a comemoração dos 14 e dos 15 anos presencialmente, mas também destacou a adaptação do espaço para o armazenamento e distribuição de cestas básicas, itens de higiene e outros produtos para doação, chegando a mais de 3 mil cestas mensais entre maio de 2020 e setembro de 2021, o que só foi possível com parcerias como a Fiocruz e a Frente de Mobilização da Maré. Com toda a dureza da pandemia, a resiliência e a ciência, com a disponibilização das vacinas, tornaram possível chegar a maio de 2022 com segurança para uma comemoração desse porte. “É uma alegria estar aqui e também é uma forma de reverenciar e de homenagear aquelas pessoas que não conseguiram chegar no dia de hoje”, declarou. Ainda na mesa de abertura, o diretor Luiz Antônio destacou o crescimento do Museu nos últimos 16 anos, tornando-se uma referência em museologia social tanto nacional quanto internacionalmente, tendo realizado numerosas viagens para compartilhar experiência. Ele destacou a presença de alguns representantes de parcerias do Museu, como o Museu da Vida da Fiocruz, as psicanalistas do Psi Maré, e o deputado federal Alessandro Molon, responsável por uma emenda parlamentar em execução no Museu. Chamado para a mesa, o deputado falou sobre o apoio da emenda parlamentar destacando ser um retorno para a sociedade: “Esse dinheiro público é de vocês. Ele não é um dinheiro meu e fazer essa emenda não é nenhum favor, é apenas cumprir a obrigação de devolver a vocês o que é de vocês. Isso é muito importante ficar claro para que não pareça que é um presente de algum parlamentar que veio dar alguma coisa. Dinheiro público é de todos nós, é um dinheiro recolhido do trabalho de todos nós”.

O deputado Alessandro Molon (com microfone), Luiz Antônio e Renata Tavares. Foto: Ana Cristina da Silva.

Apresentações culturais

O primeiro grupo a se apresentar no aniversário foi o Entrelugares, grupo teatral que realiza suas oficinas no Museu da Maré, majoritariamente com moradores do bairro. Foram os alunos da turma atual que se apresentaram com a coreografia “O tempo do meu caos”, uma performance em dança com a música Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Segundo a diretora, Gabriela Luiz, fala da experiência do corpo mareense fora do território e em diálogo com outros corpos. Logo após, apresentou-se outro grupo sediado no museu: o Maré de Bambas, de capoeira. Eram cerca de 30 pessoas, de 6 a 50 anos de idade, apresentando-se em modalidades como maculelê, jogo de capoeira, samba de roda e também solo.

O grupo Entrelugares Maré apresentou uma coreografia original com direção de Gabriela Luiz. Foto: José Bismarck.


Grupo de capoeira Maré de Bambas fez sua tradicional apresentação no Museu. Foto: Ana Cristina da Silva.


Depois do teatro e da capoeira, a festa ficou ainda mais animada com o grupo Maré Batuque, regido por Bruno Azevedo. Tocando surdo, caixa, chocalho, repique e berimbau, eram 11 pessoas. O Maré Batuque é um grupo independente, formado por pessoas que se conheceram num curso de percussão e decidiram criar um projeto próprio com uma identidade autônoma. Sem espaço próprio nem instrumentos, eles ensaiam quando podem e utilizam instrumentos emprestados, inclusive para a apresentação. Mesmo assim, não deixam de estar presentes: “Todo ano que tem festa a gente participa, é a terceira vez”, contou Bruno. O grupo está aberto a novos integrantes, basta fazer contato pelo Instagram. Por fim, as apresentações fecharam com o grupo de hip-hop do Museu, também formado por moradoras e moradores que ensaiam no espaço, executando uma coreografia montada pelo instrutor Cláudio Márcio. O talento expresso em todas as apresentações causou muitas palmas, gritos e assovios do público.

Grupo Maré Batuque levou músicas tocadas só com percussão para agitar o público. Foto: Ana Cristina da Silva.


O grupo de hip-hop que faz oficinas no Museu também se apresentou. Foto: Ana Cristina da Silva.

Vida longa ao Museu

O evento foi uma grande reunião de amigos e apoiadores, como a psicanalista Leila Ripoll, membra do grupo Psi Maré, um projeto de atendimento dos Psicanalistas Unidos pela Democracia para moradoras e moradores da Maré. Ela elogiou as apresentações da noite e ressaltou a importância da existência do espaço: “O Museu tem uma função com a sociedade, que eu acho que é uma coisa importantíssima, é um tipo de museu vinculado com a história do local onde ele está inserido. Ele traz uma história de resistência, que para a gente é um depoimento importante, uma história de que é possível fazer arte e fazer cultura mesmo com todas as adversidades que a gente sabe que são encontradas aqui”.

Em entrevista, o deputado federal e apoiador Alessandro Molon (PSB) falou sobre a motivação em prestigiar o evento: “Celebrar essa conquista que é a existência desse museu e a importância do resgate da memória dos moradores desse lugar e da história da Maré. Sem conhecer a nossa história é muito mais difícil mudar o nosso futuro. Estou muito feliz e muito orgulhoso de todo o trabalho que o Museu da Maré vem fazendo”. E deixou os votos de aniversário para o espaço cultural: “Muitos e muitos anos de vida para o Museu da Maré e, mais do que isso, que continue crescendo, construindo, encontrando, produzindo, juntando, resgatando como vem fazendo tão bem nesses últimos 16 anos”.

O momento também foi de abertura da exposição O Lugar Onde Moro. Foto: José Bismarck.


Yago Melo, arte-educador do Museu da Maré, falou sobre o impacto dos projetos do Museu na sua descoberta como artista desde o início de sua atuação, como Jovem FAPERJ, em 2017: “Na verdade o Museu é o grande responsável pelo meu eu artístico. Em paralelo ao trabalho no Museu eu sou dançarino da Maré, e quando eu venho para o Museu eu faço também oficina de hip-hop e de teatro, então o Museu me agrega como pessoa e como artista”, expressou. Sobre o seu cotidiano de trabalho no Museu, ele falou sobre um momento muito especial que é quando os moradores, principalmente mais antigos, ao ver as fotos da exposição 12 Tempos da Maré, começam a relembrar suas histórias. Esse é um contato muito especial, também, para a pesquisadora do Museu Adrielly Ribas, que além de fazer a mediação na exposição faz parte do núcleo de história oral. Para ela, é fundamental o trabalho de ouvir os moradores mais velhos, quando eles se sentem protagonistas: “A maioria deles ficam felizes de ter a oportunidade de ter alguém ali olhando para eles e perguntando sobre quem eles são, o que eles fizeram, de onde vieram e o que estão fazendo”. Adrielly atua no Museu, também, com as bolsistas Jovem FAPERJ, responsáveis pela nova exposição presente na galeria, chamada O Lugar Onde Moro. As fotografias em exibição foram criadas a partir de uma oficina desenvolvida pelo fotógrafo José Bismarck, a partir da qual elas utilizaram o próprio celular para captar seu cotidiano na Maré. Rute dos Santos, Danielle Ferreira, Kaylaine Pereira, Nicole Macedo, Rayssa Silva são as responsáveis pelas fotos e pelos textos da exposição.

Conversando com a equipe do jornal, a diretora do Museu Cláudia Rose relembrou o início do “Museu da Maré”, como o projeto de uma exposição de longa duração que seria sediada na Casa de Cultura. Esse era o nome, em 2006, do espaço onde hoje fica o Museu, e com o tempo o próprio público da Casa começou a chamar de Museu e o novo nome, Museu da Maré, foi apropriado. O diretor do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), Luiz Antônio de Oliveira, também comemorou o momento de reencontro e afirmou que o Museu ainda tem muito a crescer: “Tem muita coisa a ser feita com a equipe do Museu no sentido de fazer com que o Museu da Maré seja uma política pública, não só para o Rio de Janeiro mas para todo o Brasil. Eu acho que essa é a missão, uma das missões do Museu da Maré”.