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Ministra Anielle Franco conversa com mobilizadores sociais na Maré

Por Carolina Vaz, publicado originalmente no Jornal O Cidadão



Foto de capa: José Bismarck


“As pessoas que estão ao redor precisam saber que aonde eu for eu vou levar a pauta da

Maré, e aonde eu for a Maré está comigo, porque o nosso coração vem de onde o nosso

lar foi primeiro”.


A mareense Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, conversou com mobilizadores

comunitários da Maré na última segunda-feira (19), no Centro de Artes da Maré (CAM).

Estavam representados mais de 30 coletivos, projetos e instituições do território de áreas

como comunicação, cultura, memória e saúde, apresentando as demandas da Maré com

recorte racial.


A artista, educadora, mestre e doutoranda Beatriz Virgínia abriu o evento apresentando um slam. Foto: José Bismarck.


Anielle estava acompanhada de outros dois membros do Ministério: Yuri Silva, Diretor de Combate e Superação do Racismo, e Márcia Lima, secretária nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Combate e Superação do Racismo. Também se fizeram presentes Isadora Brandão, secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a vereadora Monica Benício e a deputada Renata Souza. O evento foi apresentado por Flavinha Cândido.


Tudo envolve a questão racial


Foram muitas as demandas dos mareenses expostas na conversa com a ministra,

secretários e as parlamentares, mas tudo passa pela questão racial. A professora Angela

Santos, coordenadora pedagógica na Escola Bahia, cobrou a implementação das leis 10.639, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, e 13.935, que garante a existência de psicólogos e assistentes sociais.


Bruno Silva Barros, professor do Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes,

comentou a grande evasão escolar entre os estudantes da Maré, que são cerca de 75%

pretos e pretas, e comentou ser esse fato um sintoma da falta de emprego e renda na

família. Promover capacitação para formar trabalhadores também foi o ponto de Jedai,

mobilizador da Kelson’s. Proteger as crianças e jovens da violência foi o foco de outras

falas como Arthur Pedro, do Instituto Vida Real, Matheus Frazão, representando o

CEASM e Museu da Maré, Vânia Moraes da Silva, do coletivo de mães, e Arthur Vianna,

do Fórum Basta de Violência.



Angela Santos e Matheus Frazão. Foto: José Bismarck.


A saúde mental não só de jovens como de adultos, com especial atenção às mulheres, foi

enfatizada por Simone Lauar, do Mentes da Maré, e Priscila Monteiro, do Espaço Casulo.

Raniery Soares, do Maré de Resistências, pediu um olhar para a população carcerária,

composta em sua maioria por negros, e Dayana Gusmão, da coletiva Resistência Lésbica

da Maré, cobrou que haja por parte do Estado uma rede de acolhimento às mulheres

lésbicas, bis, trans e travestis. Também se fizeram presentes e apresentaram suas

demandas a Redes da Maré, Casa Preta, Observatório de Favelas, Frente Maré,

Conexão G, Instituto Seja Democracia, time de futebol Mariellas, coletivo Marés, Entidade

Maré, Mulheres ao Vento, coletivo Movimentos, Raízes da Mata e coletivo de mães

jovens.


Evento aconteceu no galpão do CAM, na Nova Holanda. Foto: José Bismarck.


Segurança Pública para o direito à vida


A fala dos representantes dos ministérios teve como foco a segurança pública, vistas as

frequentes operações policiais que afligem a Maré, fragilizando a saúde física e mental, a

educação, o trabalho, e ameaçando a própria vida. Segundo Yuri Silva, a presença da

comitiva no bairro representa a disposição do ministério em dialogar com os moradores

sobre as demandas e angústias do território. Ele ainda convidou os presentes para a

Caravana Juventude Negra Viva que aconteceria no Circo Crescer e Viver nos dias

seguintes.


A secretária Isadora Brandão também afirmou o compromisso do MDHC com a

elaboração de políticas para as vítimas de violência estatal e seus familiares, e agradeceu

a oportunidade de escutar os moradores: “Temos absoluta compreensão e clareza de que

qualquer resposta eficaz para essa questão da segurança pública e seu impacto sobre

corpos negros só pode sair a partir das elaborações das pessoas que habitam esses

territórios”.


Márcia Lima destacou o desafio do MIR, o primeiro ministério exclusivo para a

igualdade racial, em construir políticas de vida digna após um governo de ódio,

intolerância e apagamento das pessoas. Segundo ela um dos pontos de trabalho é a

política de cotas no ensino superior e no serviço público.



Da esquerda para a direita: Marinete Silva, Anielle Franco, Renata Souza, Monica Benicio, Márcia Lima, Isadora Brandão e Yuri Silva. Foto: José Bismarck.


A favela só vence quando a vitória é coletiva


A frase, parte do slam da artista Beatriz Virgínia, que abriu o evento, se encaixou

perfeitamente na composição do sofá do CAM, com a ministra, a deputada e a vereadora

mareenses lado a lado. Renata Souza aproveitou para destacar o trabalho das

instituições onde elas se formaram e que possibilitaram ocupar os lugares onde estão:

“Isso aqui é resultado também da construção que cada um de vocês fizeram no cotidiano

de sobrevivência dentro dessa favela. (…) Se a gente está sentada aqui hoje é porque

outras pessoas fizeram de maneira muito concreta para a gente poder estar nesse lugar”.

Monica Benicio concordou, reiterando que é preciso ter favelados ocupando todos os

espaços, mas frisou que só ter um ministério e as representações não é o suficiente: é

preciso ter um orçamento para o ministério, para as políticas de direitos humanos e de

reparação da sociedade ainda fragilidade.


Nesse mesmo sentido, a ministra Anielle Franco informou alguns diálogos que tem feito

no governo e projetos do ministério. Segundo ela, o MIR tem pautado uma coordenação

específica de saúde da população negra no Ministério da Saúde; tem um projeto para

cozinhas solidárias e fortalecimento de hortas comunitárias; vem pensando com a

Educação o fortalecimento das políticas de permanência nas universidades; e está

construindo um projeto de combate ao racismo no esporte. Ela frisou que o tempo da

administração pública é lento, mas que não vai tirar os projetos da pauta.


“Enquanto agente estiver aqui a gente vai continuar lutando por dias melhores, vida mais digna”.

Foto: José Bismarck.

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