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Mães em luta por justiça e pela vida

Valorização e divulgação das memórias e histórias de moradoras e moradores: homenagens afetivas nas redes sociais do Museu da Maré durante a pandemia


Cláudia Rose Ribeiro da Silva, diretora do Museu da Maré/CEASM

Publicado originalmente no Radar Covid-19 Favela



Em 16 de março de 2020, as equipes do Museu da Maré e do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) definiram o fechamento de seus espaços físicos para atividades com o público e participantes dos projetos. Ao mesmo tempo, iniciamos uma campanha de ajuda emergencial aos moradores, em parceria com a Frente de Mobilização. Com o avanço da pandemia, nosso envolvimento nas ações da Frente ficou cada vez mais intenso e, por outro lado, a necessidade de adaptarmos os projetos do Museu à realidade virtual, passou a ser um imperativo. Um exemplo dessa mudança foi a adequação do Projeto de História Oral à aplicação de um questionário, por meio de contato telefônico, aos moradores ou seus parentes para que fossem homenageados em nossas redes sociais. Um texto elaborado a partir das respostas ao questionário e fotografias escolhidas pela família compõem a homenagem a cada moradora e morador de diversas comunidades do território. Entre maio de 2020 e maio de 2021, o Museu já compartilhou 38 homenagens, publicadas às sextas-feiras e que são sempre muito aguardadas pelos seguidores de nossas redes, provocando inúmeras mensagens amorosas de identificação com as histórias e memórias narradas.


A homenagem que preparamos e divulgamos em 14 de maio apresentou um conteúdo diferenciado das anteriores. O coração do texto não bateu por uma pessoa ou pessoas mareenses. Em meio à política genocida em curso no país e, particularmente, no estado do Rio de Janeiro, as populações periféricas e faveladas são vítimas de ações coordenadas para produzir a morte. Mas a dor que dilacera também une aquelas e aqueles que ficaram, fortalecendo a luta por justiça, verdade e direito à memória. Nesse cenário de perdas, a homenagem foi dedicada aos movimentos de mães e familiares das vítimas da violência produzida direta e indiretamente pelo Estado e seus agentes, superando as fronteiras do país e trazendo a força das mulheres latino-americanas. O texto, que expõe as lutas de movimentos criados e protagonizados por mães, foi precedido pela leveza e a potência das palavras de Conceição Evaristo, mulher fazedora de poesias transbordantes de memórias ancestrais marcadas por lutas, pela cor preta, pela força do feminino e pela fertilidade materna.


DE MÃE

O cuidado de minha poesia

aprendi foi de mãe,

mulher de pôr reparo nas coisas,

e de assuntar a vida (...)


É a energia ancestral e criadora da Mãe que nos coloca de pé diante das perdas que tivemos nesses tempos tão difíceis. E foi essa mesma energia que nos encoraja a continuar na luta e nos motivou a escrever cada palavra da homenagem para os movimentos coletivos de mães que estão na luta diária e incansável por JUSTIÇA.


Esses coletivos também ecoam e potencializam as lutas das mães mareenses, que perderam suas filhas e seus filhos precocemente e de forma violenta. São Gracilenes, Anas, Irones, Marinetes, Brunas, Vanias, Alices; são muitas mulheres-mães que nos ensinam a continuar firmes na caminhada, apesar do sofrimento.


Um desses movimentos é o Moleque, que foi criado pela Monica Cunha, amiga do Museu da Maré. Monica teve 3 filhos: Marcos Vinicius da Silva Cunha, 39 anos; Rafael da Silva Cunha, 34 anos; e Wylbert Luiz Pereira da Silva, 27 anos. O filho do meio, Rafael, foi assassinado, em 2006. É assim que essa mãe da resistência descreve o coletivo: “O Moleque é a minha vida, é o porquê da minha existência. Eu pari três filhos, aí o Rafael foi assassinado, o que entra no lugar dele é o Moleque. Então, hoje eu tenho o Marcos Vinícius, Wylbert Luiz e o Moleque. Ele é para sempre! Pertenço a muitos outros, mas esse é o início de tudo!”

Café das Fortes – Movimento Moleque. Imagem: acervo pessoal Mônica Cunha


Na Favela de Acari, Zona Norte da cidade do Rio, surge o coletivo Mães de Acari. Em 1990, após o sequestro de 11 jovens, que viajaram para um sítio em Magé, na Baixada Fluminense, surge um dos primeiros movimentos de familiares contra a violência de Estado. O processo desse crime abominável cometido por agentes de segurança – homens, que se identificaram como policiais militares - foi arquivado por falta de provas e, posteriormente, prescrito. O que torna essa agressão do Estado ainda mais abjeta e perversa é o fato de ser negado aos familiares o direito de enterrar seus mortos. Até hoje, as Mães de Acari não têm resposta por parte do poder público sobre o que aconteceu com seus filhos desaparecidos e, apesar disso, elas começaram a receber, a partir de 2011, Declarações de Ausência, constando no lugar para registro da causa da morte a expressão “Chacina de Acari”. Essas mulheres incansáveis são responsáveis por um legado importante e fundamental para os movimentos sociais na luta por justiça.


Vera Flores – Mães de Acari. Imagem: Fábio Araújo.


Manguinhos é uma favela vizinha à Maré. É nesse território que surge o coletivo Mães de Manguinhos, infelizmente, mais um movimento criado em consequência da violência do Estado nas favelas do Rio. Em 14 de maio de 2014, Johnatha de Oliveira, na época com 19 anos, estava voltando para sua casa, quando foi assassinado com um tiro nas costas. Sua mãe, Ana Paula de Oliveira, é uma das principais representantes dos movimentos de mães articuladas em coletivos em todo o Brasil. Mães de Manguinhos promove anualmente o Levante por Memória, Justiça e Liberdade nas Favelas e Periferias, com atividades culturais que denunciam o genocídio da juventude negra.


As dores do povo periférico brasileiro se misturam às dores dos povos periféricos latino-americanos. O movimento Mães da Praça de Maio, na Argentina, nasceu do trauma profundo gerado pela extrema violência do Estado contra sua população durante a ditadura civil-militar, entre os anos de 1976 e 1983. Avós, mães, filhas, esposas, se reuniram na Praça de Maio, em frente à sede do governo argentino, ainda durante a vigência da ditadura, arriscando suas vidas para exigir justiça e o direito à memória e à verdade sobre as mais de 30 mil pessoas desaparecidas.


Do México vem mais um lamento de dor e força de luta, a Caravana 43 Sudamérica ou Caravana de Ayotzinapa. Em 26 de setembro de 2014, 43 estudantes da área rural de Ayotzinapa, durante ação repressiva do Estado, foram sequestrados por policiais e entregues a traficantes do cartel do estado de Guerrero, que executaram os jovens. A Caravana passou a peregrinar por vários lugares do mundo para chamar a atenção da opinião pública, conseguir justiça e forçar investigações para que os corpos desaparecidos de seus filhos e filhas fossem encontrados. Em junho de 2015, integrantes da Caravana estiveram no Rio e participaram de atividades realizadas no Museu da Maré. Naquela ocasião, o território vivia há 15 meses a rotina de medo imposta pela ocupação das tropas federais, realidade tão próxima àquela experimentada pelos parentes dos 43 estudantes mexicanos. O tema sobre a desmilitarização da vida perpassou todas as atividades, das quais participaram representantes de diversos movimentos de mães. Mulheres do México, Manguinhos, Rocinha, Alemão, Maré e Mães de Maio (São Paulo) compartilharam dores e potências no Museu.

Cartaz Germán Montalvo. Carteles por Ayotzinapa. 1ª Bienal Internacional de Cartel de Oaxaca, 2015.


São essas mães que nos ensinam diariamente a não desistir, a criar poesia da dor, a agir coletivamente frente às injustiças, a lutar por nossos direitos. Muitas dessas mulheres eram donas de casa e, como a maioria de nós, viviam um cotidiano comum. De repente, diante de perdas terríveis, tornaram-se militantes engajadas e incansáveis pelo direito à memória, à verdade e à justiça. Por mais que essas mulheres nos inspirem – e como nos inspiram! -, sonhamos e lutamos por um mundo onde mães possam ser as melhores mães para seus filhos e criá-los com segurança e amor, como deveria ser sempre e em qualquer lugar. Mas, por enquanto, não nos resta outra alternativa, a não ser ficar ao lado dessas guerreiras e nos engajar na defesa da vida. Às mães do Jacarezinho, que nesse maio, Mês das Mães, perderam violentamente filhas e filhos pelas mãos assassinas das forças policiais do Estado, toda a nossa solidariedade e apoio.


Estamos juntas e juntos na luta contra a política genocida, que nos mata pela violência bruta, assim como por meio de ações, propositalmente negligentes no combate à pandemia. São mais de 440 mil mortos, em números oficiais de maio. Indignação e denúncia; organização e trabalho coletivo; persistência e coragem; amorosidade e afeto. Tudo isso aprendemos foi DE MÃE. De volta ao começo, nos reencontramos com a leveza e a potência das palavras de Conceição Evaristo. Em meio ao extermínio das populações periféricas, “por bala ou por vírus”, é de mãe que vem nossa força, Mulheres-Mães que nos apontam o caminho a ser percorrido. Por elas chegamos a esse mundo e, também por elas, sonhamos e lutamos para transformá-lo.